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A pandemia Covid-19, para além do desafio no plano sanitário, colocou empresários e gestores perante o dilema de parar ou avançar, de forma particular os das PME’s nacionais.

Partilho a minha visão, alicerçada numa análise com base em dois eixos – economia / finanças e pessoas / comportamento – e com as questões que suscitam, com o propósito de ajudar cada um a decidir melhor o que fazer…

Economia / Finanças

  • Com o FMI (Fundo Monetário Internacional) a prever um recuo do PIB na ordem dos 8% e o défice público acima dos 7% no final do ano,
  • com um rácio de dívida pública a disparar para 135% do PIB também segundo o FMI e com necessidades de financiamento na ordem dos 25 ou 30 mil milhões, a crer nas projeções de muitos economistas e com a União Europeia a garantir apenas parte das necessidades financeiras a custos aceitáveis,
  • com a maioria dos setores de atividade brutalmente afetados, com o turismo e o imobiliário à cabeça, setores com um peso direto e indireto relevante no nosso PIB,
  • somos colocados perante duas questões cujas respostas são críticas para sabermos o que fazer:
    • vamos ter capacidade de ir ao mercado emitir dívida a custos aceitáveis para obter o capital necessário para fazer face às despesas que estão a ser feitas na saúde, no suporte às famílias, no apoio às empresas, … e do investimento que há de ser feito para relançar a economia?
    • vamos, como país, ser capazes de encetar um caminho de uso dessa dívida para reforçar a nossa capacidade e fatores produtivos com o objetivo de transformar a dívida que contraímos em capital?

Pessoas / Comportamentos

  • Com as “verdades” que tínhamos como adquiridas a serem questionadas, como por exemplo a descoberta da nossa incapacidade para lidar com os limites da realidade, com a incerteza e com o poder inabalável da natureza sobre a nossa vida e as suas circunstâncias,
  • com as pessoas mais introspetivas, a olharem mais para dentro de si e menos para o que as rodeia, por exemplo a refletirem sobre o que são e como são, a pensarem sobre o modelo de vida pessoal e profissional que seguem e a relativizarem os quereres e desejos que têm comandado as suas vidas,
  • com a tomada de consciência que afinal a vida é mesmo imprevisível e nós é que a vivemos como se fosse certa e previsível para evitarmos a ansiedade que tal estado gera e que a confiança e a esperança no futuro passa muito por cada um de nós e que implica um trabalho que tem que ser feito todos os dias,
  • levantam-se mais duas questões:
    • será que os sistemas de valores individuais e os padrões de comportamento das pessoas vão manter-se ou vão alterar-se de forma significativa?
    • será que a confiança em nós próprios, nos outros e nas instituições, públicas e privadas, e a esperança saem afetadas e vão ser restabelecidas num prazo razoável (mais ou menos 1 ano)?

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Possíveis respostas

Economia / Finanças

  • Em relação ao financiamento do Estado e da economia tudo aponta para que venhamos a obter o financiamento que necessitarmos, seja por via do BCE, MEE (Mecanismo de Estabilidade Europeu) ou do mercado da dívida sem dificuldades de maior;
  • Quanto à transformação da dívida em capacidade produtiva que permita o reforço da nossa capacidade e fatores produtivos para transformar essa dívida em capital, tenho reservas, porque o nosso passado não me deixa tranquilo em relação a essa possibilidade.

Pessoas / Comportamentos

  • Em relação aos sistemas de valores individuais e aos padrões de comportamento das pessoas penso que vamos assistir a algumas mudanças e ao acelerar de algumas tendências que já eram visíveis nos tempos mais recentes:
  • mudanças:  antecipa-se um novo olhar para o valor da cooperação e de uma maior atenção aos outros, por oposição a condutas autocentradas e individualistas; espera-se igualmente um reforço do sentido crítico e da autorreflexão sobre a realidade, bem como uma maior busca de sentido e de propósito para a vida; por fim, espera-se uma maior consciência da finitude da capacidade humana face aos limites da vida, colocando a humildade neste domínio num patamar de maior importância comparativamente ao que lhe tem sido atribuído; espera-se igualmente uma desaceleração da globalização, com a relocalização de muita indústria na Europa; finalmente, as fronteiras vão ser mais rígidas, com uma previsível redução da mobilidade a nível internacional por motivos profissionais e de turismo e lazer;
  • aceleração de tendências: o peso das questões relativas à sustentabilidade vai acentuar-se e com ele o regresso à relação com a terra, à harmonia com a natureza, às ações de proteção do ambiente, como a reciclagem, a diminuição do consumo e a adoção de práticas e comportamentos de proteção dos eco sistemas; é também de prever o aumento do número de pessoas em teletrabalho e a realização de reuniões a partir de casa ou de qualquer outro ponto através de sistemas telemáticos; vai assistir-se ainda à intensificação das relações entre as pessoas como um valor per se e não como um fator catalisador de eficiência e eficácia operacional; finalmente, vão ser intensificados os processos de reformulação de modelos de negócio e de funcionamento das empresas através da transformação digital.
  • Quanto à confiança e à esperança, estou convicto que serão restabelecidas dentro de um ano / ano e meio, porque a nossa cultura favorece a aceitação das dificuldades pela generalidade das pessoas como se fossem inevitáveis, o que neste caso até é verdade, e que nos leva a esquecer de forma relativamente rápida o que nos acontece, independentemente da dureza das situações, sendo neste caso um fator de aceleração da recuperação da economia.
  1. Conclusão

Face ao exposto empresários e gestores devem procurar manter os seus negócios e empresas, mas dando uma especial atenção a três fatores especialmente críticos:

  1. ter em conta o setor de atividade em que se insere o negócio, porque tudo aponta para que a recuperação seja diferente de setor para setor;
  2. avaliar a capacidade económica e financeira para suportar um período de cerca de 2 anos com uma operação previsivelmente pouco rentável ou mesmo deficitária, até que a economia atinja um desempenho que permita uma operação com rentabilidades mais simpáticas; e
  3. ajustar a visão e a estratégia de negócio e aferir a necessidade de adaptar a proposta de valor e o modelo de negócio, com a finalidade de responder aos novos padrões de consumo e de comportamento que vão emergir, nalguns casos muito diferentes dos atuais.

José Duarte Dias

Managing Partner

Paradoxo Humano