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Primeiro que tudo uma declaração de interesses: não aprecio, nem nunca vi um programa da Cristina Ferreira do princípio ao fim. Apenas pequenos excertos, muito pontualmente. Mas admiro-a, porque define muito bem o seu cliente ideal e cria e entrega-lhe o produto que ele quer, valoriza e deseja. Podemos gostar ou não do conteúdo e do estilo. Mas temos de concordar que é um excelente exemplo do que é um consistente alinhamento entre a visão e a ação. O resultado é uma carreira fulgurante, sempre em ascensão e estações de televisão que “lutam” e pagam bem, muito bem, para contar com ela nas suas fileiras. Porque sabem que na hora de fazer contas cada euro que aplicam nela tem um retorno muito, mas muito acima, da média. Transformou-se numa verdadeira máquina de fazer dinheiro.

A saída da SIC para a TVI apanhou toda a gente de surpresa. Porque foi inesperada e era inimaginável. Mas aconteceu!… Para alguns tratou-se de uma traição. Para outros de uma desmedida ambição. Para mim é uma lição. E porquê? Porque mostra que quando a capacidade de criar e de concretizar resulta em produtos ou serviços ajustados a um segmento de clientes específico e bem definido a relevância dos recursos materiais, como o capital, deixa de ser absoluta e passa a ser relativa. De uma forma simples: de que serve ter dinheiro se faltam ideias, conhecimento e competências para as colocar em prática? Ora Cristina Ferreira percebe isso muito bem. Ela sabe que as ideias, com base nas quais desenvolve e entrega os seus programas, prendem ao écran o seu cliente ideal. Mais: sabe que quanto maior for o número de pessoas e de minutos de atenção que capta, maiores as parcelas de poder que conquista aos detentores de capital. E sabe que a partir de um certo ponto a relação de poder altera-se, com ela a ganhar. De certo modo ela começa a tornar-se também “dona” da estação para quem trabalha.

A TVI, aparentemente, percebeu que o capital e a qualidade dos estúdios, das plataformas digitais, dos equipamentos, … que utiliza (hardware organizacional) são fundamentais no negócio televisivo, mas não bastam. Em paralelo é indispensável ter a correr sob esse hardware ideias, muitas e boas ideias (software organizacional), para que o mesmo seja rentabilizado. E por isso, para além de um pack remunerativo de exceção, encara com total normalidade a entrega de poder com a sua entrada no capital da sociedade. Acolhê-la na estrutura acionista da empresa. Torná-la “dona” do hardware que utiliza nos seus programas, para que no futuro, se for aliciada para sair, pense que se o fizer está potencialmente a destruir capital. Capital que também é dela. E que, portanto, vai perder. E foi isto que a SIC parece não ter percebido, pensando que bastava o controlo do capital, do hardware organizacional, para evitar que saísse e fosse para a concorrência. Uma “distração” que lhe pode sair cara. Aguardemos… E esperemos que outras empresas, de outros setores de atividade, percebam e saibam aprender com a lição da Cristina.

José Duarte Dias,

Managing Partner

Paradoxo Humano